Café com R - Newsletter
Edição 12 - Fazer o que faz sentido
- Que cada gole desperte uma nova ideia.
- Que cada script abra uma nova conversa.
- Que o Café com R se torne um ponto de encontro nosso.
O gole da semana
Você já mediu seu progresso com a régua de outra pessoa?
Não a sua. A de alguém que você respeita, acompanha de longe ou simplesmente observa sem perceber que está observando. A régua do colega que publicou mais, do profissional que chegou antes, da trajetória que parece mais consistente do que a sua.
Essa régua tem uma característica específica: ela nunca marca o lugar certo. Porque não foi feita para você.
Parar de usá-la não é indiferença ao próprio desenvolvimento. É a decisão de definir, com clareza, o que constitui progresso para a sua trajetória e seguir medindo por aí.
Esta edição é sobre isso.
A dose técnica
O que o doutorado ensina e o que ele não ensina
O doutorado oferece uma formação técnica densa. Você aprende a formular perguntas com rigor, a escolher métodos com critério, a sustentar argumentos com evidência. Aprende a conviver com a incerteza de um processo longo cujo resultado não é garantido. Aprende a trabalhar sozinho(a) durante períodos que testam qualquer nível de disciplina.
O que o doutorado raramente ensina é que existe mais de uma forma legítima de usar tudo isso.
A academia tem uma régua própria. Publicação, pesquisa, posição institucional, volume de citações. Essa régua é coerente dentro do sistema que a criou e é válida para quem quer seguir exatamente esse caminho.
O problema não está na régua em si.
Está em aplicá-la a trajetórias que têm outra lógica, outro tempo, outros critérios de valor.
Quando você sai de um doutorado com uma visão única do que constitui uma carreira legítima em uma determina área, qualquer desvio desse caminho parece uma perda.
Uma escolha menor. Um recuo.
Não é. É apenas um caminho diferente sendo medido com a régua errada.
Você já sentiu isso?
O peso de uma trajetória que parecia desviar do que deveria ser não porque estivesse errada, mas porque a régua disponível não conseguia medir o que estava sendo construído?
O que acontece quando você para de olhar para o lado
Hoje trabalho como consultora, mentora e ministrando treinamentos. Nenhuma dessas três frentes estava no mapa que eu tinha quando terminei o doutorado.
O que estava no mapa era um caminho mais estreito. Mais legível para quem vinha de fora. Mais fácil de explicar numa linha de apresentação.
O que veio no lugar foi construído a partir de uma habilidade que existia antes do título e que o doutorado apenas aprofundou: analisar dados. Entender o problema antes de abrir o código. Saber o que os números dizem e, tão importante quanto, o que eles não dizem. Comunicar resultados para pessoas que precisam tomar decisões com base neles.
Essa habilidade tem valor fora da academia.
Tem valor na consultoria, onde o problema do cliente raramente vem formulado com clareza e parte do trabalho é formular a pergunta certa antes de qualquer análise. Tem valor na mentoria, onde a experiência de ter errado, corrigido e aprendido é o que torna a orientação útil. Tem valor nos treinamentos, onde a capacidade de explicar com profundidade sem perder acessibilidade é o que define se o conteúdo chega ou não chega.
Nada disso aparece quando você está olhando para o lado, comparando sua trajetória com a de quem seguiu o caminho mais legível.
Aparece quando você para de olhar para o lado e começa a olhar para o que está construindo.
Aspiração não é o mesmo que comparação
Tenho aspirações de carreira. Isso não mudou.
O que mudou foi entender a diferença entre aspiração e comparação porque as duas podem parecer a mesma coisa por fora e são completamente diferentes por dentro.
Aspiração é movimento em direção ao que faz sentido para você. É saber onde quer chegar e trabalhar para isso com critério, sem pressa que não seja a sua. É um processo orientado por valores próprios, por escolhas conscientes, por uma ideia clara do que constitui progresso na sua trajetória específica.
Comparação é movimento em direção ao que faz sentido para outra pessoa. É ajustar o próprio ritmo ao ritmo de quem está ao lado. É definir sucesso pelo que a outra pessoa já alcançou. É uma corrida cujo percurso você não escolheu e cujo destino não é necessariamente o seu.
As duas geram movimento. Mas só uma gera direção.
Parar de medir o próprio sucesso com a régua errada não é resignação. Não é abrir mão de ambição. É a decisão de construir uma régua que seja sua que meça o que importa para a trajetória que você está de fato percorrendo, não a trajetória que alguém esperava que você percorresse.
O que ficou
O que fica de uma mudança que parecia incerta é, quase sempre, mais do que o que existia antes.
Fica a capacidade de analisar que veio do doutorado, mas aplicada em contextos que o doutorado não imaginava.
Fica a habilidade técnica em dados que virou ferramenta de trabalho, não só de pesquisa.
Fica a prática de ensinar, que começa como pré-requisto e, para quem tem vocação, vira algo que se escolhe ativamente.
E fica, principalmente, a clareza de que fazer o que faz sentido não é uma concessão ao que poderia ter sido. É uma escolha, consciente, revisada e refeita com frequência de construir uma trajetória que você consegue habitar com integridade.
Antes de fechar esta edição, uma pergunta para você levar:
Com qual régua você está medindo o seu próprio progresso agora?
Ela foi feita para a sua trajetória ou você a pegou emprestada de alguém e esqueceu de devolver?
O que estou acompanhando
Livro: A coragem de ser imperfeito: Como aceitar a própria vulnerabilidade, vencer a vergonha e ousar ser quem você é. https://www.amazon.com.br/coragem-ser-imperfeito-Bren%C3%A9-Brown/dp/8543104335
Depois dessa recomendação, posso encerrar por aqui.
Próxima edição
O que a IA não consegue fazer por você.
Sobre o movimento de profissionais que estão recuando do uso de IA por sentirem que o pensamento está ficando mais raso. Como aprender de verdade quando a resposta está sempre a um prompt de distância.
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