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Edição 11: O que separa um script de uma análise?

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Análise de dados
Todo script executa. Nem toda análise é bem pensada. Esta edição explora a diferença entre as duas coisas e o que muda quando você começa a escrever seu código com uma visão de análise.
Author

Jennifer Luz Lopes

Published

June 5, 2026

  • Que cada gole desperte uma nova ideia.
  • Que cada script abra uma nova conversa.
  • Que o Café com R se torne um ponto de encontro nosso.


O gole da semana


Você já abriu um script seu de seis meses atrás e não conseguiu entender o que estava fazendo?

Não o código em si. O código talvez até rode sem erro. Torcemos, né?

Mas a intenção por trás dele. Por que aquela variável foi transformada daquela forma. Por que aquele filtro existe. O que aquela análise tentava responder e se ela chegou a alguma resposta.

Esse momento de estranhamento diante do próprio trabalho não é falta de memória.

É o sinal de que o que foi escrito era um script, não uma análise.

A diferença entre os dois não está no volume de código, nem na complexidade das operações, nem nas ferramentas usadas. Pode ter certeza disso!

Está em algo anterior ao código: a presença ou ausência de uma pergunta que organiza tudo o que vem depois.

Esta edição é sobre essa diferença e sobre o que realmente muda quando você começa trabalhar com análises.



A dose técnica


Uma situação que reconheço

Havia um projeto que eu considerava concluído. Tinha limpeza de dados, cruzamento de tabelas, visualizações, um modelo ajustado. Tudo rodava. Os gráficos eram legíveis. O modelo convergia.

Isso não faz tanto tempo kskskskskksksk! Faz parte

Quando precisei retomar o projeto três meses depois para adicionar uma variável nova, percebi que não sabia por onde começar. Não porque o código fosse desorganizado estava razoavelmente estruturado. Mas porque em nenhum lugar estava registrado o que aquele projeto tentava descobrir. Qual era a pergunta central. Por que aquele conjunto de variáveis e não outro. O que o modelo deveria responder e para quem.

O que eu tinha era uma sequência de operações tecnicamente corretas sem nenhum argumento que as conectasse. Era um script longo. Não era uma análise.

Esse tipo de situação é mais comum do que parece. E o problema não aparece enquanto você está no meio do trabalho, aparece quando você precisa sair e voltar, quando precisa explicar para alguém, quando precisa revisar ou estender.

Você já passou por isso? Em qual momento percebeu que o que tinha era código funcionando, mas não uma análise que se sustentava por si mesma?


O que define um script

Um script executa operações em sequência.

Ele importa dados, limpa colunas, cria variáveis, ajusta modelos, gera gráficos, exporta resultados. Cada linha faz algo. O conjunto das linhas produz um output.

O script pode estar tecnicamente correto em cada uma dessas etapas e ainda assim ser completamente vazio quanto ao raciocínio. Ele não precisa ter uma pergunta formulada para rodar. Não precisa registrar por que uma decisão foi tomada em vez de outra. Não precisa ter conclusão, tem output.

Três características definem um script que nunca se tornou análise:

  1. Ausência de pergunta explícita. O script começa com a importação dos dados, não com a formulação do problema. O que se quer descobrir está implícito ou nunca foi definido com clareza.

Aqui eu debato muito com meus alunos, hoje em dia fazemos as perguntas, formulamos as hipóteses e objetivos juntos, para que eles tenham uma clareza maior em cada análise.

  1. Decisões sem justificativa. Por que esse filtro e não aquele? Por que transformação logarítmica nessa variável? Por que esse modelo e não outro? Essas escolhas existem no código, mas o raciocínio que as motivou não está registrado em nenhum lugar.

  2. Output sem interpretação. O script termina quando o último gráfico é salvo ou a última tabela é exportada. O que aqueles resultados significam no contexto do problema, para quem vai usá-los, não faz parte do arquivo.

Isso não significa que scripts são ruins. Para tarefas repetitivas, para automações, para processamento de dados que não requer argumentação, o script é o formato correto. O problema está em tratar como análise algo que é, estruturalmente, um script.


O que define uma análise

Uma análise parte de uma pergunta.

Não de dados.

Não de um modelo.

De uma pergunta que organiza todas as decisões que vêm depois, quais dados são relevantes, quais transformações fazem sentido, qual método responde ao que se quer saber, o que o resultado significa no contexto do problema.

Essa distinção tem consequências diretas na forma como o trabalho é produzido e na forma como pode ser avaliado por outra pessoa.

Quando a pergunta está explícita, cada decisão de código pode ser justificada ou questionada em relação a ela. Quando não está, as decisões flutuam sem ancoragem e quem revisa o trabalho não tem como saber se as escolhas feitas foram as mais adequadas ou se foram as primeiras que apareceram.

O Quarto é o ambiente onde essa distinção se torna estrutural. Não porque seja obrigatório usar Quarto para escrever análises, mas porque ele torna natural a coexistência do texto e código no mesmo documento.

A pergunta aparece antes do código. As decisões são explicadas no texto que precede cada bloco.

A interpretação aparece depois do output, não em arquivo separado.


Um exemplo mínimo da diferença em termos práticos:

Um script:

modelo <- lm(Temp ~ Wind + Solar.R, data = airquality)
summary(modelo)

Uma análise o mesmo código, mas com contexto:

A hipótese central é que a temperatura diária é influenciada
pela velocidade do vento e pela radiação solar. Espera-se
relação negativa com o vento, dias mais ventosos tendem a
ser mais frios - e positiva com a radiação solar.

```r
modelo <- lm(Temp ~ Wind + Solar.R, data = airquality)
model_parameters(modelo, ci = 0.95)
```

O coeficiente de Wind é negativo e estatisticamente
distinguível de zero, o que é consistente com a hipótese.
O IC 95% indica que o efeito está entre X e Y, uma
magnitude relevante para o contexto.


Três perguntas que transformam um script em análise

Não é necessário reescrever tudo. É necessário responder três perguntas, antes de começar, durante e ao revisar.

  1. Antes de escrever a primeira linha: Qual é a pergunta que este trabalho tenta responder? Se você não consegue formular essa pergunta em uma frase, o problema não está no código, está na definição do problema. Vale parar aqui antes de seguir, tá bem?

  2. Durante, a cada decisão relevante: Por que estou fazendo esta escolha e não outra? Isso não significa comentar cada linha. Significa registrar, em texto, as decisões que têm alternativas possíveis e que afetam os resultados, qual variável foi incluída e por quê, qual transformação foi aplicada e com que justificativa, qual método foi escolhido entre os disponíveis.

  3. Ao revisar, antes de considerar concluído: Se eu enviasse este documento para alguém que não conhece os dados e não participou do projeto, essa pessoa conseguiria entender o que estava sendo investigado, as escolhas que foram feitas e o que os resultados significam?

Se a resposta for não, o trabalho ainda não é uma análise. É um script com outputs.

Essa última pergunta é a mais útil porque simula exatamente a situação que revela o problema: alguém de fora ou você mesmo, seis meses depois tentando entender um trabalho que faz sentido apenas para quem estava presente quando foi feito.



O que estou acompanhando


Uma senhora toma chá - Livro maravilhoso!

Uma senhora toma chá foi escrito por David Salsburg e publicado originalmente em inglês em 2001, com o título The Lady Tasting Tea: How Statistics Revolutionized Science in the Twentieth Century. A edição brasileira foi publicada pela Zahar em 2009.

Recomendo a leitura e terá resenha para vocês!



Próxima edição - 12 de junho

Fazer o que faz sentido - Sobre medir o próprio progresso com a régua certa, o que o doutorado ensina e não ensina sobre carreira e o que ficou de uma trajetória que mudou de forma.


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