Aula 51. Dados ausentes

Estrutura antes de imputar, os três mecanismos de Little e Rubin

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Objetivos da aula

  • Entender por que imputar dados ausentes sem antes examinar seu padrão é um risco metodológico
  • Definir os três mecanismos de dados ausentes de Little e Rubin
  • Diagnosticar, na prática, se a ausência está relacionada a outra variável observada
  • Escolher o tratamento adequado conforme o mecanismo identificado

Bloco 1

O Problema de Imputar sem Entender

O erro de imputar direto, sem checar o padrão

  • Contexto: um registro de 200 aplicações de defensivo agrícola apresenta valores ausentes na variável dose aplicada, dose_ml_l.

  • A prática comum de substituir todo valor ausente pela média da variável assume, implicitamente, que a ausência ocorre de forma completamente aleatória.

  • Quando essa suposição não é verdadeira, e a ausência está relacionada a outra característica dos dados, a imputação pela média distorce a análise, em vez de corrigi-la.

Important

Atenção: o tratamento correto de dados ausentes começa pela pergunta “por que este valor está faltando?”, não pela escolha do método de imputação.

Bloco 2

Os Três Mecanismos, Little e Rubin

MCAR, ausência completamente aleatória

  • Missing Completely At Random. A probabilidade de um valor estar ausente não depende de nenhuma variável, observada ou não observada, do conjunto de dados.

  • Exemplo: uma falha aleatória do sensor de campo, sem relação com o produto aplicado, o talhão ou a dose real.

  • Sob MCAR, a exclusão simples das linhas com dados ausentes não introduz viés, apenas reduz o tamanho da amostra.

MAR, ausência aleatória condicional

  • Missing At Random. A probabilidade de um valor estar ausente depende de outra variável observada no conjunto de dados, mas não do próprio valor ausente.

  • Exemplo: a dose de produtos biológicos é registrada com menor frequência em campo, uma prática associada ao tipo de produto, variável observada, não à dose em si.

  • Sob MAR, a exclusão simples pode introduzir viés, mas a imputação baseada nas variáveis observadas relacionadas à ausência é apropriada.

MNAR, ausência dependente do próprio valor

  • Missing Not At Random. A probabilidade de um valor estar ausente depende do próprio valor que está faltando, mesmo depois de considerar as demais variáveis observadas.

  • Exemplo: doses fora do intervalo recomendado por bula deixarem de ser registradas propositalmente pelo aplicador, por receio de repreensão.

  • Sob MNAR, nenhum método de imputação baseado apenas nos dados observados corrige o viés sem informação externa adicional.

Código: visualização do padrão de ausência

registros_aplicacao |> vis_miss()

registros_aplicacao |>
  summarise(proporcao_ausente = mean(is.na(dose_ml_l)))

Output e interpretação

# A tibble: 1 × 1
  proporcao_ausente
              <dbl>
1              0.17
  • A visualização confirma que apenas a variável de dose apresenta valores ausentes, em torno de 17% do total. Esse percentual isolado não diz, ainda, se o mecanismo é MCAR, MAR ou MNAR.

Bloco 3

Diagnosticando o Mecanismo na Prática

Código: teste de Little e verificação direta

registros_aplicacao |>
  select(dose_ml_l, area_tratada_ha) |>
  mcar_test()

registros_aplicacao |>
  mutate(dose_ausente = is.na(dose_ml_l)) |>
  group_by(tipo_produto) |>
  summarise(proporcao_ausente = mean(dose_ausente))

Output e interpretação

# A tibble: 1 × 4
  statistic    df p.value missing.patterns
      <dbl> <dbl>   <dbl>            <int>
1      1.38     1   0.240                2
# A tibble: 2 × 2
  tipo_produto proporcao_ausente
  <chr>                    <dbl>
1 Biológico                0.403
2 Químico                  0.053
  • O teste de Little, aplicado apenas às variáveis numéricas, não indica evidência contra MCAR, porque a variável que realmente explica a ausência, o tipo de produto, é categórica e não entra nesse teste. A comparação direta por grupo revela o que o teste global não capturou, a proporção de ausência é muito maior entre produtos biológicos, evidência de um mecanismo MAR.

Decisão, conforme o mecanismo identificado

Mecanismo identificado Tratamento apropriado
MCAR Exclusão simples aceitável, ou imputação simples
MAR Imputação baseada nas variáveis observadas relacionadas à ausência, como o tipo de produto
MNAR Nenhum método baseado apenas nos dados observados corrige completamente o viés, é necessária informação externa ou nova coleta

Bloco 4

Erros Comuns

Erro comum 1, imputar pela média sem checar o mecanismo

  • Substituir todo valor ausente pela média da variável, sem verificar se a ausência está relacionada a outra variável, distorce a distribuição e pode enviesar comparações entre grupos.

  • No contexto deste estudo: imputar a dose ausente pela média geral ignoraria que a maior parte da ausência vem de produtos biológicos, que podem ter uma dose típica diferente da média geral.

Erro comum 2, assumir MCAR sem verificar

  • Tratar todo dado ausente como MCAR, por padrão, sem testar essa suposição contra as variáveis observadas disponíveis, é a origem mais comum de viés silencioso em análises com dados faltantes.

  • A verificação direta por grupos, como demonstrado no Bloco 3, deve ser feita mesmo quando um teste formal global não indica evidência contra MCAR.

Resumo: dados ausentes

Mecanismo Depende de Tratamento indicado
MCAR Nada, aleatório puro Exclusão simples aceitável
MAR Variável observada Imputação condicionada à variável observada
MNAR O próprio valor ausente Requer informação externa

Obrigada!

Continue praticando e explorando.

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