Aula 44. Quando o teste t não é adequado

Alternativas não paramétricas, Mann-Whitney e Wilcoxon, e quando cada uma se aplica

Acompanhe o Café com R

  • Que cada gole desperte uma nova ideia.

  • Que cada script abra uma nova conversa.

  • Que o Café com R se torne um ponto de encontro nosso.

SITE OFICIAL > https://jenniferlopes.github.io/meu_site/

Objetivos da aula

  • Reconhecer quando o teste t não é adequado, e por que
  • Aplicar o teste de Mann-Whitney para duas amostras independentes
  • Aplicar o teste de Wilcoxon de postos com sinais para amostras pareadas
  • Entender o conceito de eficiência relativa assintótica
  • Saber quando o teste paramétrico ainda é a melhor escolha, mesmo havendo alternativa
  • Evitar os erros mais comuns na aplicação de testes não paramétricos

Bloco 1

Mann-Whitney, Duas Amostras Independentes

Quando usar, por que o teste t não se aplica aqui

  • Contexto: um provador certificado atribui notas sensoriais, escala SCA de 0 a 100, a lotes de café processados por via natural e por via lavada, 10 lotes em cada grupo.

  • Um dos lotes processados por via natural apresenta um defeito perceptível durante a avaliação, resultando em uma nota muito abaixo das demais.

  • Esse valor discrepante, somado ao tamanho pequeno da amostra, compromete a suposição de normalidade exigida pelo teste t. O teste de Mann-Whitney compara as duas distribuições sem depender dessa suposição.

Hipóteses e estatística do teste

  • O teste de Mann-Whitney, também chamado teste U, compara as posições relativas das observações dos dois grupos, e não suas médias diretamente.

\[H_0: \text{as duas distribuições são iguais} \qquad H_1: \text{as duas distribuições diferem}\]

  • O procedimento ordena todas as observações dos dois grupos em conjunto, atribui postos, e calcula a estatística U a partir da soma dos postos de cada grupo.

  • Por trabalhar com postos, e não com os valores originais, o teste é pouco sensível a valores discrepantes.

Código: distribuição dos dados e teste de Mann-Whitney

notas_sensoriais |>
  group_by(processo) |>
  summarise(n = n(), media = mean(nota), mediana = median(nota))

shapiro.test(notas_natural)

resultado_mw <- wilcox.test(nota ~ processo, data = notas_sensoriais)

Output: teste de Mann-Whitney

# A tibble: 2 × 4
  processo        n media mediana
  <chr>       <dbl> <dbl>   <dbl>
1 Via lavada     10  85.5    85.6
2 Via natural    10  81.4    82.8
# A tibble: 1 × 2
  shapiro_estatistica shapiro_p
                <dbl>     <dbl>
1               0.640    0.0002
# A tibble: 1 × 2
  estatistica_w valor_p
          <dbl>   <dbl>
1            92  0.0017
  • O teste de Shapiro-Wilk indica desvio da normalidade no grupo via natural, consequência do valor discrepante. O teste de Mann-Whitney compara as duas distribuições sem exigir essa suposição, e seu p-valor determina se há diferença estatística entre os dois processos.

Bloco 2

Wilcoxon, Amostras Pareadas

Quando usar, mesma unidade avaliada duas vezes

  • Contexto: os mesmos 12 lotes de café recebem nota sensorial antes e depois de um ajuste no perfil de torra. Cada lote gera duas notas relacionadas, não duas amostras independentes.

  • Quando a suposição de normalidade das diferenças é questionável, ou quando a escala de avaliação é ordinal, o teste de Wilcoxon de postos com sinais substitui o teste t pareado, preservando a estrutura de emparelhamento.

Hipóteses e estatística do teste

\[H_0: \text{a mediana das diferenças é zero} \qquad H_1: \text{a mediana das diferenças é diferente de zero}\]

  • O procedimento calcula as diferenças dentro de cada par, ordena essas diferenças por seu valor absoluto, atribui postos, e soma os postos separadamente conforme o sinal da diferença, positivo ou negativo.

  • Diferenças iguais a zero são removidas antes da atribuição dos postos, e empates recebem o posto médio.

Código: teste de Wilcoxon pareado

diferencas <- nota_depois - nota_antes

resultado_wilcoxon <- wilcox.test(nota_antes, nota_depois, paired = TRUE)

tibble(
  mediana_diferenca = median(diferencas),
  estatistica_v      = resultado_wilcoxon$statistic,
  valor_p            = resultado_wilcoxon$p.value) |>
  mutate(across(where(is.numeric), ~ round(.x, 4)))

Output: teste de Wilcoxon pareado

# A tibble: 1 × 3
  mediana_diferenca estatistica_v valor_p
              <dbl>         <dbl>   <dbl>
1               2.6             0  0.0025
  • A mediana das diferenças é positiva, indicando melhora na nota sensorial após o ajuste de torra na maioria dos lotes. O p-valor do teste de Wilcoxon indica se essa melhora é estatisticamente consistente, sem exigir a suposição de normalidade das diferenças.

Bloco 3

Eficiência Relativa Assintótica

O que é a eficiência relativa assintótica

  • A eficiência relativa assintótica, ARE, mede quanta informação um teste não paramétrico preserva em relação ao teste paramétrico correspondente, quando as suposições do teste paramétrico são de fato atendidas.

  • Sob normalidade perfeita, o teste de Wilcoxon mantém aproximadamente 95,5% da eficiência do teste t, uma perda pequena.

  • Quando a normalidade não se sustenta, a eficiência relativa pode ultrapassar 100%, o teste não paramétrico se torna mais poderoso que o teste t nessas condições.

Quando o teste paramétrico ainda é a melhor escolha

  • Quando a suposição de normalidade é razoável e a amostra é suficientemente grande, o teste t continua sendo a escolha mais eficiente, mesmo com a pequena perda de eficiência dos testes de postos sendo praticamente irrelevante.

  • O teste t também permite estimar diretamente a magnitude da diferença entre médias, com intervalo de confiança na escala original dos dados, o que os testes de postos não fornecem da mesma forma direta.

  • A escolha não deve ser automática. Verificar a suposição de normalidade antes de decidir é sempre o primeiro passo.

Tabela de equivalências

Situação Teste paramétrico Alternativa não paramétrica
Duas amostras independentes Teste t independente Mann-Whitney
Duas amostras pareadas Teste t pareado Wilcoxon de postos com sinais
Três ou mais grupos independentes ANOVA Kruskal-Wallis
Associação entre variáveis contínuas Correlação de Pearson Correlação de Spearman

Bloco 4

Erros Comuns

Erro comum 1, usar teste não paramétrico sempre por precaução

  • Aplicar sistematicamente o teste não paramétrico, sem verificar a suposição de normalidade, abre mão de poder estatístico desnecessariamente quando os dados são de fato aproximadamente normais.

  • A escolha do teste deve ser fundamentada na verificação da normalidade, não em uma preferência automática por segurança.

Erro comum 2, interpretar o resultado do Mann-Whitney como comparação de médias

  • O teste de Mann-Whitney compara distribuições com base em postos, sua conclusão diz respeito à posição relativa dos valores, não diretamente às médias dos grupos.

  • Reportar o resultado do Mann-Whitney afirmando que “as médias diferem” é impreciso. O correto é afirmar que as distribuições, ou as medianas sob certas condições, diferem entre os grupos.

Erro comum 3, aplicar o Wilcoxon pareado em dados que não são pareados

  • Usar wilcox.test(x, y, paired = TRUE) quando as observações de x e y não têm correspondência real entre si produz um resultado sem interpretação válida.

  • O pareamento exige uma relação de correspondência genuína entre as observações, como o mesmo lote medido duas vezes, não apenas dois vetores do mesmo tamanho.

Resumo: alternativas não paramétricas

Teste Compara Hipótese nula Função no R
Mann-Whitney Duas amostras independentes Distribuições iguais wilcox.test(y ~ grupo)
Wilcoxon pareado Duas amostras pareadas Mediana das diferenças igual a zero wilcox.test(x, y, paired = TRUE)
ARE Eficiência do teste não paramétrico Não se aplica Não se aplica

Obrigada!

Continue praticando e explorando.

Esta aula é parte do projeto Café com R. É open source. Use, compartilhe e adapte.

Siga o Café com R

  • Que cada gole desperte uma nova ideia.

  • Que cada script abra uma nova conversa.

  • Que o Café com R se torne um ponto de encontro nosso.

SITE OFICIAL > https://jenniferlopes.github.io/meu_site/