Aula 39. Teste de hipóteses

Estrutura formal da decisão estatística e o p-valor

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Conteúdos relacionados para estudar mais:

Objetivos da aula

  • Construir a estrutura formal de um teste de hipóteses, \(H_0\) e \(H_1\)
  • Distinguir hipótese unicaudal de hipótese bicaudal
  • Reconhecer os quatro resultados possíveis de um teste, e o trade-off entre erro tipo I e erro tipo II
  • Definir formalmente o p-valor, e reconhecer o que ele não é
  • Diferenciar significância estatística de relevância prática
  • Reportar corretamente um resultado, com p-valor, tamanho de efeito e intervalo de confiança

Bloco 1

Teste de Hipóteses, Estrutura Formal

O problema da inferência como decisão

  • Contexto: um inseticida é aplicado em parcelas de soja para controlar percevejo. Parcelas controle não recebem o produto. A pergunta é se o inseticida reduz, de fato, a contagem de percevejos por metro linear, ou se a diferença observada entre os grupos é apenas variação amostral.

  • Um teste de hipóteses formaliza essa pergunta em uma estrutura de decisão, com regras explícitas sobre quando considerar a evidência suficiente para afirmar que existe um efeito real.

\(H_0\) e \(H_1\), definição formal

  • A hipótese nula, \(H_0\), representa a ausência de efeito, a situação padrão que se assume verdadeira até que haja evidência suficiente em contrário.

\[H_0: \mu_{\text{controle}} = \mu_{\text{tratado}}\]

  • A hipótese alternativa, \(H_1\), representa o efeito que se deseja evidenciar.

\[H_1: \mu_{\text{controle}} > \mu_{\text{tratado}}\]

  • O teste nunca prova \(H_0\) verdadeira. Ele apenas determina se há evidência suficiente para rejeitá-la.

Hipótese unicaudal x bicaudal

Tipo Formulação Quando usar
Bicaudal \(H_1: \mu_1 \neq \mu_2\) Direção do efeito desconhecida a priori
Unicaudal \(H_1: \mu_1 > \mu_2\) ou \(H_1: \mu_1 < \mu_2\) Direção do efeito definida antes da coleta dos dados
  • No contexto deste estudo: a expectativa de que o inseticida reduza a contagem de percevejos é definida antes da coleta, o que justifica um teste unicaudal.

Important

Atenção: a escolha entre unicaudal e bicaudal deve ser feita antes de observar os dados. Escolher a direção do teste depois de ver o resultado invalida a interpretação do p-valor.

Os quatro resultados possíveis de um teste

Decisão \(H_0\) verdadeira \(H_0\) falsa
Não rejeitar \(H_0\) Decisão correta Erro tipo II (\(\beta\))
Rejeitar \(H_0\) Erro tipo I (\(\alpha\)) Decisão correta (poder, \(1-\beta\))
  • Erro tipo I: concluir que o inseticida funciona quando, na realidade, não há efeito.

  • Erro tipo II: concluir que o inseticida não funciona quando, na realidade, ele reduz a contagem de percevejos.

O trade-off entre os dois erros

  • Reduzir \(\alpha\), o nível de significância, torna o critério de rejeição mais rígido, o que reduz o erro tipo I, mas aumenta o erro tipo II, para um tamanho de amostra fixo.

  • A única forma de reduzir os dois erros simultaneamente é aumentar o tamanho da amostra.

  • Essa é a razão pela qual a análise de poder estatístico, antes da coleta de dados, é parte essencial do planejamento experimental.

Código: formulação do teste

amostra_percevejo |>
  group_by(grupo) |>
  summarise(
    n     = n(),
    media = mean(percevejos),
    dp    = sd(percevejos))

resultado_t <- t.test(controle, tratado, alternative = "greater")

Output: teste aplicado

# A tibble: 2 × 4
  grupo        n media    dp
  <chr>    <dbl> <dbl> <dbl>
1 Controle    25  7.75  2.62
2 Tratado     25  5.40  2.46
# A tibble: 1 × 3
  estatistica_t graus_liberdade valor_p
          <dbl>           <dbl>   <dbl>
1          3.26            47.8   0.001
  • A média do grupo controle é maior que a média do grupo tratado, na direção esperada por \(H_1\). O valor de p obtido determina se essa diferença é suficiente para rejeitar \(H_0\) ao nível de significância adotado.

Bloco 2

O p-valor

Definição formal do p-valor

  • O p-valor é a probabilidade de observar uma estatística de teste tão extrema quanto, ou mais extrema que, a estatística observada, assumindo que \(H_0\) é verdadeira.

\[p = P(T \geq t_{\text{observado}} \mid H_0 \text{ verdadeira})\]

  • O p-valor é calculado sob a suposição de que não há efeito. Ele descreve a compatibilidade dos dados com \(H_0\), não a probabilidade de \(H_0\) estar certa.

O que o p-valor NÃO é

  • Não é a probabilidade de \(H_0\) ser verdadeira.

  • Não é a probabilidade de \(H_1\) ser verdadeira.

  • Não é a probabilidade de o resultado ter ocorrido por acaso.

  • Não mede o tamanho do efeito, nem a importância prática do resultado.

Important

Atenção: essas quatro interpretações são as mais frequentes em artigos e relatórios técnicos, e todas estão incorretas segundo a definição formal do p-valor.

O que o p-valor É, com precisão

  • O p-valor mede o quão incompatíveis os dados observados são com \(H_0\), sob o modelo estatístico assumido.

  • Um p-valor pequeno indica que os dados seriam raros se \(H_0\) fosse verdadeira, o que fornece evidência contra \(H_0\), não uma prova contra ela.

  • Um p-valor grande não é evidência de que \(H_0\) é verdadeira, apenas indica ausência de evidência suficiente para rejeitá-la.

Código: visualização geométrica do p-valor

gl     <- resultado_t$parameter
t_obs  <- resultado_t$statistic

curva_t <- tibble(t = seq(-4, 4, length.out = 600), y = dt(t, df = gl))
area_p  <- curva_t |> filter(t >= t_obs)

ggplot(curva_t, aes(x = t, y = y)) +
  geom_line(color = cores_cafe["azul_escuro"], linewidth = 1.1) +
  geom_area(data = area_p, aes(x = t, y = y),
            fill = cores_cafe["marrom"], alpha = 0.6) +
  geom_vline(xintercept = t_obs, linetype = "dashed",
             color = cores_cafe["marrom"], linewidth = 1)

Gráfico: área do p-valor sobre a curva t

Significância estatística x relevância prática

  • Um resultado pode ser estatisticamente significativo, p pequeno, e ainda assim ter efeito irrelevante na prática, quando o tamanho da amostra é grande o suficiente para detectar diferenças mínimas.

  • Um resultado pode não ser estatisticamente significativo, p grande, e ainda ter um efeito relevante, quando o tamanho da amostra é pequeno demais para detectá-lo com confiança.

  • No contexto deste estudo: uma redução de meio percevejo por metro linear pode ser estatisticamente detectável, mas não justificar, sozinha, o custo da aplicação do inseticida.

As recomendações da ASA

  • A American Statistical Association publicou, em 2016, uma declaração formal sobre o uso do p-valor. Os pontos centrais incluem:

  • O p-valor não mede a probabilidade de a hipótese estudada ser verdadeira, nem a probabilidade de os dados terem sido produzidos apenas pelo acaso.

  • Conclusões científicas não devem se basear apenas na ultrapassagem de um limiar numérico, como p menor que 0,05.

  • Uma decisão científica adequada exige relatar o tamanho de efeito, o intervalo de confiança e o contexto do estudo, e não apenas o valor de p isolado.

Código: reportando corretamente um resultado

resultado_ic <- t.test(controle, tratado)

diff_medias <- mean(controle) - mean(tratado)
sd_pooled   <- sqrt(((length(controle) - 1) * sd(controle)^2 +
                      (length(tratado) - 1) * sd(tratado)^2) /
                     (length(controle) + length(tratado) - 2))
cohens_d    <- diff_medias / sd_pooled

tibble(
  diferenca_medias = diff_medias,
  ic_inf            = resultado_ic$conf.int[1],
  ic_sup            = resultado_ic$conf.int[2],
  cohens_d          = cohens_d,
  valor_p           = resultado_t$p.value) |>
  mutate(across(where(is.numeric), ~ round(.x, 3)))

Output: relatório correto

# A tibble: 1 × 5
  diferenca_medias ic_inf ic_sup cohens_d valor_p
             <dbl>  <dbl>  <dbl>    <dbl>   <dbl>
1             2.34  0.898   3.79    0.922   0.001
  • O relatório completo inclui a magnitude da diferença, sua incerteza representada pelo intervalo de confiança, o tamanho de efeito padronizado pelo d de Cohen, e o p-valor. Nenhum desses quatro elementos, isoladamente, conta a história completa do resultado.

Bloco 3

Erros Comuns

Erro comum 1, interpretar o p-valor como a probabilidade de \(H_0\) ser verdadeira

  • O p-valor é calculado assumindo que \(H_0\) é verdadeira, ele não pode, ao mesmo tempo, medir a probabilidade dessa suposição.

  • Essa é a confusão mais frequente na literatura, e inverte a lógica condicional da definição formal do p-valor.

Erro comum 2, achar que p igual a 0,049 é muito diferente de p igual a 0,051

  • O limiar de 0,05 é uma convenção, não uma fronteira natural entre evidência e ausência de evidência.

  • Dois resultados com p tão próximos representam praticamente a mesma força de evidência contra \(H_0\), apesar de um estar de um lado do limiar e o outro do outro lado.

Erro comum 3, confundir significância estatística com relevância prática

  • Reportar apenas “diferença significativa, p menor que 0,05” sem informar a magnitude da diferença omite a informação mais relevante para a tomada de decisão.

  • A pergunta que importa na prática não é apenas se existe diferença, mas se essa diferença é grande o suficiente para justificar uma ação, como a adoção de um novo produto ou prática de manejo.

Resumo: teste de hipóteses e p-valor

Conceito Definição resumida Função no R
\(H_0\) Hipótese de ausência de efeito Não se aplica
\(H_1\) Hipótese do efeito esperado Argumento alternative
Erro tipo I Rejeitar \(H_0\) sendo ela verdadeira Controlado por \(\alpha\)
Erro tipo II Não rejeitar \(H_0\) sendo ela falsa Controlado pelo poder do teste
p-valor Probabilidade dos dados sob \(H_0\), não probabilidade de \(H_0\) t.test()$p.value
Tamanho de efeito Magnitude da diferença, independente de n cohens_d

Obrigada!

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